terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

POBRE, NEGRA, ALUNA DE ESCOLA PÚBLICA É PRIMEIRO LUGAR NO VESTIBULAR MAIS DISPUTADO DO BRASIL

Garota escreveu que “A casa-grande surta quando a senzala vira médica”
Desprezada pelo pai, negra, pobre, aluna de escola pública, filha de uma atendente de caixa. A trajetória de vida não combina com o primeiro lugar em Medicina na Fuvest, de São Paulo, um dos vestibulares mais difíceis do Brasil.
Mas é o que aconteceu: Bruna Sena, 17 anos, é a primeira colocada de um dos concursos mais complicados dos país.
Sua colocação foi comemorada com uma frase que estava entalada na garganta da jovem: “A casa-grande surta quando a senzala vira médica”.
A referência ao clássico livro de sociologia do Brasil revela uma jovem que sofreu muito. Para a “Folha de S. Paulo”, a mãe revelou toda ordem de sofrimento.
Dinália Sena, 50, conta que a filha lutava com os livros e enfrentava as dificuldades, como a matemática, “morta” nas aulas de Kumon.
A mãe diz que chegou em casa um dia e viu um livro destinado para a garota. “Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida. Não deixe que a vida te vença, estude”.
A adolescente mora na periferia e reconhece todas as dificuldades enfrentadas pela mãe: moram juntas em um conjunto habitacional e só pensa agora em se preparar para ser uma das melhores alunas de medicina do país.
Jovem antenada, milita nas causas contra o racismo e movimento feminista, diz que a hora é de comemorar a vitória no vestibular com a concorrência de 75,58 candidatos por vaga. Ela reconhece que a bolsa em um cursinho particular na reta final mudou todo o resultado
“Minha mãe ralou muito para que eu tivesse esse resultado e preciso honrar isso. Sou grata também a minha escola, ao cursinho. Do meu pai, nunca entendi o desprezo, me incomoda um pouco, mas agora é hora de comemorar e ser feliz.”
A família (fora o pai) ajudou a garota no que podia, mas ela é que fez o esforço final. “Tudo na nossa vida foi com muita luta, desde que ela nasceu, prematura de sete meses, e teve de ficar internada por 28 dias. Não tenho nenhum luxo, não faço minhas unhas, não arrumo meu cabelo. Tudo é para a educação dela”, declara a mãe.

São vitórias como essa que podem ajudar o Brasil a se reconstruir. A história de Bruna Sena não é ficção, não é pós-verdade. É mais uma vitória de quem se esforça, mesmo tudo estando contra.